Li, nessa sexta-feira última, a matéria de capa do Diário de Pernambuco onde se afirmava categoricamente, baseado em uma pesquisa do IPEA (onde cerca de 60% dos entrevistados eram mulheres), que 65% dos brasileiros apontam que a culpa da violência contra a mulher, seja ela visualizada em homicídios, atentados violentos ao pudor, espancamentos ou estupros, é da PRÓPRIA vítima.
Fiquei puto da vida, não somente como cidadão, mas também como professor e como homem. A realidade é que o resultado dessa pesquisa apenas nos fornece um indício de como as coisas são... desconfortáveis? Não! O termo não é esse. Essa é apenas uma mostra de como as coisas são HORRÍVEIS. Acredito que a realidade é bem pior do que 65%, a quantidade de vezes que vi, ouvi e li posicionamentos machistas ridículos de justificação sobre estupros é enojante e retrógrada.
É fruto de uma sociedade que enxerga ainda hoje que a mulher deve ser submissa ao homem, deve andar como se tivesse um cabresto e nem olhar pra os lados, jamais pode emitir opinião sobre assuntos "masculinos" e deve se calar quando os seres norteadores da existência moral e pudica, ou seja, nós, os homens, descrevemos como é a melhor forma de se viver e se comportar.
Mais interessante é que essa moral tem uma fundamentação cada vez mais fluida, ela transita entre o moralista religioso que usa um discurso forte e crítico sobre todas as outras seitas satânicas, porque o outro não tem direito a religião, tem direito a seita - fadada ao Inferno de Dante, é claro. Aí você se surpreende quando descobre que esse mesmo moralista é o cara que foi no terreiro de candomblé descobrir-se crente em algum orixá. A ideia de moral também transita pelas figuras portadoras do combate aos homossexuais, mas se esquece do encontro secreto que teve com o cara que conheceu na internet. Passa, sobretudo, pelas mesmas figuras que afirmam cotidianamente que existem "negros de alma branca" porque isso é um elogio, apenas na sua infinita ignorância, ou ainda na vaga ideia que lugar de mulher é na cozinha, tão somente lá.
Acredito que a todo dia devemos lembrar nossos alunos, nossos colegas e amigos, que ser moral não significa ser portador da verdade, mas sim ser portador e propagador de respeito. Não existe roupa e nem ausência desta que permita estupro. Não é novidade que a sociedade brasileira pensa de forma preconceituosa, sob vários aspectos, mas é um ultraje que pense que não é. Lembrem-se, queridas e queridos, a diferença básica entre machismo e feminismo de que tanto falo em sala de aula: "O machismo mata todas as horas do nosso dia, o feminismo, até hoje não."
Abraços, H. Mason

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