sábado, 29 de março de 2014

Os 65% que aparecem não refletem a realidade, ela é bem pior.



Li, nessa sexta-feira última, a matéria de capa do Diário de Pernambuco onde se afirmava categoricamente, baseado em uma pesquisa do IPEA (onde cerca de 60% dos entrevistados eram mulheres), que 65% dos brasileiros apontam que a culpa da violência contra a mulher, seja ela visualizada em homicídios, atentados violentos ao pudor, espancamentos ou estupros, é da PRÓPRIA vítima.

Fiquei puto da vida, não somente como cidadão, mas também como professor e como homem. A realidade é que o resultado dessa pesquisa apenas nos fornece um indício de como as coisas são... desconfortáveis? Não! O termo não é esse. Essa é apenas uma mostra de como as coisas são HORRÍVEIS. Acredito que a realidade é bem pior do que 65%, a quantidade de vezes que vi, ouvi e li posicionamentos machistas ridículos de justificação sobre estupros é enojante e retrógrada. 

É fruto de uma sociedade que enxerga ainda hoje que a mulher deve ser submissa ao homem, deve andar como se tivesse um cabresto e nem olhar pra os lados, jamais pode emitir opinião sobre assuntos "masculinos" e deve se calar quando os seres norteadores da existência moral e pudica, ou seja, nós, os homens, descrevemos como é a melhor forma de se viver e se comportar. 

Mais interessante é que essa moral tem uma fundamentação cada vez mais fluida, ela transita entre o moralista religioso que usa um discurso forte e crítico sobre todas as outras seitas satânicas, porque o outro não tem direito a religião, tem direito a seita - fadada ao Inferno de Dante, é claro. Aí você se surpreende quando descobre que esse mesmo moralista é o cara que foi no terreiro de candomblé descobrir-se crente em algum orixá. A ideia de moral também transita pelas figuras portadoras do combate aos homossexuais, mas se esquece do encontro secreto que teve com o cara que conheceu na internet. Passa, sobretudo, pelas mesmas figuras que afirmam cotidianamente que existem "negros de alma branca" porque isso é um elogio, apenas na sua infinita ignorância, ou ainda na vaga ideia que lugar de mulher é na cozinha, tão somente lá. 

Acredito que a todo dia devemos lembrar nossos alunos, nossos colegas e amigos, que ser moral não significa ser portador da verdade, mas sim ser portador e propagador de respeito. Não existe roupa  e nem ausência desta que permita estupro. Não é novidade que a sociedade brasileira pensa de forma preconceituosa, sob vários aspectos, mas é um ultraje que pense que não é. Lembrem-se, queridas e queridos, a diferença básica entre machismo e feminismo de que tanto falo em sala de aula: "O machismo mata todas as horas do nosso dia, o feminismo, até hoje não."

Abraços, H. Mason

domingo, 9 de março de 2014

Quem ganha na goleada?



A resposta, para muitos, é óbvia. Aquele que emplacou uma quantidade gigantesca de gols, aquele que fez festa e buscou justificar toda a sua pretensa qualidade sobre o adversário, já destituído da possibilidade do revide, da resistência. É impossível não ver os 7 a 0 do Santa Cruz sobre o Salgueiro e não lembrar que na última quinta-feira o goleador de hoje foi o goleado, os reducionistas hão de propagar, "assim é o futebol", "uma caixinha de surpresas", mas será que nesse caso não há o que ponderar?


Na última quinta-feira, com um ataque inspirado, o Sport bateu o Santa Cruz com um 3 a 0 no primeiro dos 4 jogos que as duas maiores torcidas de Pernambuco presenciarão em menos de 25 dias. É uma goleada por se tratar de um clássico, do Clássico das Multidões (mesmo eu achando que Goleada é com pelo menos 4 gols); mas logo em seguida, o Tricolor do Arruda aplica um retumbante 7 a 0 na 4ª força do futebol pernambucano, o Salgueiro, tens uns anos já que o Carcará é a principal pedra no sapato dos clubes da capital no que tange a jogos no interior, não fazendo feio nem quando joga na capital, tanto que não me lembro de uma goleada sofrida pela equipe sertaneja. 


Então, assim sendo, temos o retorno dos Guerreiros do Arruda? Esse é o futebol que veremos de agora em diante? Creio que há de se enganar aquele que cogita isso, pois tal goleada pode gerar um sentimento terrivelmente perigoso para quem vai encarar logo na próxima semana mais um jogo decisivo pela Copa do Nordeste, e mais uma vez o adversário será o Sport. A goleada foi boa, elástica, tem-se que ter cuidado para que não seja também anestésica, transformando drasticamente a atenção e o respeito em soberba e descuido, se entrar de salto alto, toma outro sacode, pode apostar, e o mesmo funciona dos lados da Ilha do Retiro. 


Historicamente temos inúmeros casos de goleadas que ilustram a situação, mas o mais doloroso é aquele que decidiu a Copa do Mundo de 1950, a goleada sobre a Espanha teve um efeito alucinógeno na seleção brasileira, ampliado pela euforia da imprensa e dos políticos, o resultado foi drástico, mesmo com uma seleção incontestavelmente melhor o título foi para Montevidéu e para os brasileiros sobrou o complexo de vira-latas. Coincidentemente já li algo sobre isso numa crônica do ilustre Nelson Rodrigues, e não se esquece o que se lê de Nelson, e ele diz "qualquer goleada promove duas vítimas".

Abraços, H. Mason