terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Bora Dilmis, não me desapontis



Menos de um mês, mais exatamente 27 dias, do novo mandato e muitas interrogações já surgem na cabeça de uma quantidade sem fim dos eleitores da candidata Dilma Rousseff. Foram 54 milhões de votantes e uma batalha campal contra o candidato da oposição, Aécio Neves, que parecia não ter fim. O discurso político se misturou com as tensões sociais e de ideologias maquiadas e criadas muitas vezes no discurso fluido da internet e dos achismos. Foi uma eleição incomum, vislumbrei por uns momentos o belo da democracia e em outros o ridículo de pessoas que teimam em não entender o básico do nosso processo político mesmo sendo estudantes, professores, mestres, doutores e outras coisitas mais. Porém, esse não é um texto sobre 2014, essa escrita é sobre o que está vindo a galope, no encalço das concessões da última década de crescimento econômico, incentivo ao consumo e tentativa de afirmação política internacional. 

De todas as possíveis críticas nesse primeiro momento do segundo mandato de tia Dilmis o que mais me preocupa, e não poderia ser diferente, é a escolha de Cid Gomes para ministro da educação. O cidadão está incomensuravelmente longe de ser uma persona grata no meio educacional e sua escolha até agora não foi justificada de forma satisfatória. Coladinho ao anúncio de um novo piso salarial para os professores do ensino básico vem o dicotômico anúncio de corte nos investimentos na educação. O MEC deve receber 7 bilhões a menos por ano, isso por si só promove um panorama totalmente contrário ao defendido durante o processo eleitoral passado e, de forma mais importante, afasta incontáveis alunos de graduação do meio acadêmico, já que bolsas da CAPES também estão na mira do corte de gastos. 

Um outro ponto extremamente criticado desse inicio de 2015 é uma mudança no critério de acessibilidade ao seguro desemprego, onde antes o período de trabalho com CTPS assinada era de 6 meses passou a ser de 18. Nesse ponto discordo apenas em partes do governo, pois considero que o ideal seria um período de 1 ano. Essa opinião não é fruto de achismos, mas sim de vivências nos mais variados ambientes que solicitam tal benefício. 

Agora vamos ao ponto que me deixa intrigado. Por qual motivo mesmo existe uma onda de reclamação devido ao corte de gastos? (Excetuando-se o da Educação) Porque, meus caros, tem mais de 4 anos que isso já era esperado. Só podem estar zonando com a cara do preto aqui né? Raciocinem comigo, qual país na face da terra consegue viver uma fase de incentivo ao consumo fundamentado na ampliação da oferta de crédito por mais de 10 anos? Não vejo um. Se por um lado o governo aponta que houve uma redução da desigualdade por outro a concentração de renda no topo da nossa cadeia alimentar e social aumentou consideravelmente, os dois últimos anos não foram de alegrias e os dois próximos dificilmente serão. Já tinha conversado sobre isso com alguns amigos e alunos, que independente do vencedor das últimas eleições o momento seria de arrocho. Não esperávamos que ele viesse tão rápido e rasteiro como veio, mas sabíamos que ele viria. Essa afirmação está no caminho inverso do charlatanismo dos chutes políticos-econômicos de uma Miriam Leitão e tem suas bases na História e no mínimo de bom senso que ocupa nossas mentes. 

E antes que me perguntem sobre a Petrobras e a enxurrada de correntes e informações falsas que rondam o Whatsapp e o Facebook apenas peço encarecidamente que busquem as fontes, verifiquem e tentem compreender algo >>> "qual a novidade dessa bagaça?" Na boa, o Boechat ganhou um prêmio Esso em 1989 sobre corrupção na empresa ¬ ¬ 

Abraços, H. Mason

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Porque nunca fui "Somos todos"



Sempre duvidei de termos generalizantes demais, e isso não é de hoje. Confrontei-me durante muito tempo com algo que se impunha e ainda tenta se impor ao nosso mundo que é a máxima "não se discute futebol, política e religião", mas por quais motivos não se discutiria tais temas? Complexidade? Paixão? Opção? Enfim, o bom senso dizia que não era saudável discutir acerca desses assuntos, mas outros eram totalmente aceitáveis, como música, todas as pessoas que conheço conversam, debatem, discutem, gritam (!?) por música - samba, rock, pop, mpb, funk, forró, rap, reggae, brega e por aí vai - e em tese se gera tanto debate e até animosidades deveria ser algo proibido... Mas não é e isso é tema pra outro dia. Voltando a um verbo do inicio que muito me incomoda - generalizar - qual é na realidade o problema com este que se flexiona em pessoa, número, modo, tempo e voz? Simples, coloca tudo num mesmo balaio de gato.

Imaginem cá com este preto que vos fala se do dia pra noite a sua produção laboral fosse avaliada de acordo com o resultado do pior membro da sua equipe de trabalho. Em uma equipe de 5 pessoas, 4 fariam plenamente suas funções, extraindo o máximo de suas capacidades, enquanto a 5ª pessoa da equipe simplesmente deixaria ao acaso suas obrigações. Seria justo que o seu chefe dissesse que os seus funcionários eram desleixados? Não né? Seria uma baita mentira. Da mesma forma que seria mentira se ele anunciasse que todos eram dedicados e pró-ativos. Ou ainda que seu professor ao invés de avaliar sua prova particularmente e desse uma nota, o fizesse baseado na média da turma? 

Na hora do oba-oba, na hora da emoção, quantas inverdades não são proferidas? Quantas informações maliciosas não são disseminadas? 

Aqui no Brasil vimos a vibe do Somos Todos crescer depois de dois episódios no mundo do futebol: uma banana atirada em campo durante a partida entre Barcelona e Villareal em abril de 2014. Ali surgiu um SomosTodosMacacos. A segunda, durante a Copa do Mundo, quando Neymar se machucou e apareceu um SomosTodosNeymar. Na boa, não consigo ver essas duas expressões sem ter vontade de vomitar. A primeira quebra todas as pernas que já sustentaram um debate real sobre os problemas étnicos da sociedade mundial, principalmente a européia e a americana (latina e anglo-saxã). Esse problema não surge com a banana em campo, mas correu o risco de cair no lugar comum do jocoso e ser uma bandeira, pra muitos, descredenciada. Na segunda como se não bastasse a tentativa de unificar um povo sob o esporte da copa, produziriam um herói, que a todos representaria, que a todos bastava. Não, nem a seleção, nem o camisa 10, nem de longe nos bastam, nos bastaram ou hão de nos bastar.

Agora, em um momento extremamente peculiar, quando se intensificam manifestações em alguns países europeus, principalmente na Alemanha, a favor da Islamofobia, acontece o trágico ataque ao jornal de extrema-esquerda francês Charlie Hebdo. Veio a terceira expressão JeSuisCharlie. Não conheço uma só pessoa que defenda um ataque desse tipo. Mas conheço várias que são adeptas do oba-oba. Aí é que reside o perigo. É imprescindível que quando quisermos conversar, debater esse tema, que de simples não tem nada, tenhamos a mente aberta para ouvir muito mais do que a boca aberta para falar.

Por qual motivo venho salientar isso quando o debate já parece um defunto em putrefação? Porque enxergo em nossa sociedade um desejo extremo de impor o que é correto. E no afã de nos expressarmos acabamos muitas vezes por fazer ouvido de mercador a fatos importantes. Como o fato de que para nós, ocidentais, a liberdade de expressão é de um valor incomensurável, mas deve ser pautada pelo judiciário, não por censura prévia, mas para responsabilizar e reparar inverdades e ofensas. Esse pensamento é privilégio de pessoas esclarecidas e minimamente comprometidas com a cidadania e o bem-estar. Lembremos que os mesmos dizeres básicos das crenças que pregam o amor a si e ao próximo também insuflam muitos ao radicalismo. Vou me furtar ao debate histórico acerca das origens de todos esses conflitos, não poderia, entretanto, me furtar de lembrar-vos que os radicais, independente de onde estejam e de quem sigam, não conhecem a liberdade de expressão e muito menos a querem. Cala-se então a voz da liberdade? Não. Silenciemos perante o terror? Muito menos. Apenas saibamos que os atos que levamos a cabo, grandes ou pequenos, sempre são percebidos, cedo ou tarde.

Ah, e antes que me esqueça, eu não fui nem nunca seria Charlie, as charges são de extremo mal gosto e dotadas de um nível de ofensa que poucas vezes tinha visto nas minhas leituras históricas, o que em momento algum venha a significar que eles "pediram" pra acontecer tamanha tragédia ou que os radicais tivessem tal direito.

Abraços, H. Mason.