terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Porque nunca fui "Somos todos"



Sempre duvidei de termos generalizantes demais, e isso não é de hoje. Confrontei-me durante muito tempo com algo que se impunha e ainda tenta se impor ao nosso mundo que é a máxima "não se discute futebol, política e religião", mas por quais motivos não se discutiria tais temas? Complexidade? Paixão? Opção? Enfim, o bom senso dizia que não era saudável discutir acerca desses assuntos, mas outros eram totalmente aceitáveis, como música, todas as pessoas que conheço conversam, debatem, discutem, gritam (!?) por música - samba, rock, pop, mpb, funk, forró, rap, reggae, brega e por aí vai - e em tese se gera tanto debate e até animosidades deveria ser algo proibido... Mas não é e isso é tema pra outro dia. Voltando a um verbo do inicio que muito me incomoda - generalizar - qual é na realidade o problema com este que se flexiona em pessoa, número, modo, tempo e voz? Simples, coloca tudo num mesmo balaio de gato.

Imaginem cá com este preto que vos fala se do dia pra noite a sua produção laboral fosse avaliada de acordo com o resultado do pior membro da sua equipe de trabalho. Em uma equipe de 5 pessoas, 4 fariam plenamente suas funções, extraindo o máximo de suas capacidades, enquanto a 5ª pessoa da equipe simplesmente deixaria ao acaso suas obrigações. Seria justo que o seu chefe dissesse que os seus funcionários eram desleixados? Não né? Seria uma baita mentira. Da mesma forma que seria mentira se ele anunciasse que todos eram dedicados e pró-ativos. Ou ainda que seu professor ao invés de avaliar sua prova particularmente e desse uma nota, o fizesse baseado na média da turma? 

Na hora do oba-oba, na hora da emoção, quantas inverdades não são proferidas? Quantas informações maliciosas não são disseminadas? 

Aqui no Brasil vimos a vibe do Somos Todos crescer depois de dois episódios no mundo do futebol: uma banana atirada em campo durante a partida entre Barcelona e Villareal em abril de 2014. Ali surgiu um SomosTodosMacacos. A segunda, durante a Copa do Mundo, quando Neymar se machucou e apareceu um SomosTodosNeymar. Na boa, não consigo ver essas duas expressões sem ter vontade de vomitar. A primeira quebra todas as pernas que já sustentaram um debate real sobre os problemas étnicos da sociedade mundial, principalmente a européia e a americana (latina e anglo-saxã). Esse problema não surge com a banana em campo, mas correu o risco de cair no lugar comum do jocoso e ser uma bandeira, pra muitos, descredenciada. Na segunda como se não bastasse a tentativa de unificar um povo sob o esporte da copa, produziriam um herói, que a todos representaria, que a todos bastava. Não, nem a seleção, nem o camisa 10, nem de longe nos bastam, nos bastaram ou hão de nos bastar.

Agora, em um momento extremamente peculiar, quando se intensificam manifestações em alguns países europeus, principalmente na Alemanha, a favor da Islamofobia, acontece o trágico ataque ao jornal de extrema-esquerda francês Charlie Hebdo. Veio a terceira expressão JeSuisCharlie. Não conheço uma só pessoa que defenda um ataque desse tipo. Mas conheço várias que são adeptas do oba-oba. Aí é que reside o perigo. É imprescindível que quando quisermos conversar, debater esse tema, que de simples não tem nada, tenhamos a mente aberta para ouvir muito mais do que a boca aberta para falar.

Por qual motivo venho salientar isso quando o debate já parece um defunto em putrefação? Porque enxergo em nossa sociedade um desejo extremo de impor o que é correto. E no afã de nos expressarmos acabamos muitas vezes por fazer ouvido de mercador a fatos importantes. Como o fato de que para nós, ocidentais, a liberdade de expressão é de um valor incomensurável, mas deve ser pautada pelo judiciário, não por censura prévia, mas para responsabilizar e reparar inverdades e ofensas. Esse pensamento é privilégio de pessoas esclarecidas e minimamente comprometidas com a cidadania e o bem-estar. Lembremos que os mesmos dizeres básicos das crenças que pregam o amor a si e ao próximo também insuflam muitos ao radicalismo. Vou me furtar ao debate histórico acerca das origens de todos esses conflitos, não poderia, entretanto, me furtar de lembrar-vos que os radicais, independente de onde estejam e de quem sigam, não conhecem a liberdade de expressão e muito menos a querem. Cala-se então a voz da liberdade? Não. Silenciemos perante o terror? Muito menos. Apenas saibamos que os atos que levamos a cabo, grandes ou pequenos, sempre são percebidos, cedo ou tarde.

Ah, e antes que me esqueça, eu não fui nem nunca seria Charlie, as charges são de extremo mal gosto e dotadas de um nível de ofensa que poucas vezes tinha visto nas minhas leituras históricas, o que em momento algum venha a significar que eles "pediram" pra acontecer tamanha tragédia ou que os radicais tivessem tal direito.

Abraços, H. Mason.

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